O tempero do Natal

Tierle M. P. Tricerri

 

 

O que é o Natal? Presentes? O tempero do peru?

A casa cheia de convidados?

 

Desimporta quantos erros se cometeu, mas o

quanto de empenho se teve em saná-los ao

longo do ano que finda. Olhar para trás pode

não ser tão ruim, inobstante o hoje seja tudo

o que realmente temos para fazer

acontecer, trabalhar a realidade dentro daquilo

que hoje somos, como estamos vivendo, e, claro,

no estado em que nos encontramos.

 

De tudo o que fica no ano que passou é a

certeza de que temos um ano a menos de vida.

Mas nem por isso devemos nos tornar

impiedosos, já que aceitar as próprias falhas

permite entender o semelhante, e isso

matematicamente é igual a soma das chances

que possuímos ao longo de nossa jornada para

mudar, evoluir, caminhar, deixar as pegadas,

que são os verdadeiros exemplos a gerações futuras.

 

Na infância aprendemos menos por palavras,

mas por exemplos que direcionam a nossa

vida para um ou outro caminho. No desejo

de nos tornarmos pessoas melhores,

encontramo-nos com o verdadeiro eu, nossa

essência, na missão para a qual cada um

procurou (ou foi destinado) a desempenhar,

no papel como atores no cenário e no palco da

vida, que levará à linha de chegada dos desafios,

de cada meta traçada e alcançada.

 

O mercado diz, não basta ser, é preciso ter.

A publicidade cria necessidades, e, assim,

temos pressa a alcançar tudo àquilo de que não

necessitamos para nosso bem-estar,

esquecendo-nos que este mora dentro de nós

gratuitamente.

 

Podemos ter adequados recursos financeiros

e uma vida estabilizada economicamente, e

sermos vazios de sentido. Neste vazio

existencial, a vida passa célere, os dias correm

a 180km/h sem que os alcancemos jamais,

porque temos olhos e visão perfeita, mas não

enxergamos, temos acesso a perfumes caros, mas

não sentimos o aroma da natureza

exuberante, temos Facebook, mas não

amigos e ombros para recostar a cabeça

nas horas difíceis, porque a vida passou a

ser mais virtual que real.

Já “não se tem mais tempo” para o semelhante...

 

Observe o trânsito de nossas metrópoles, a deselegância

anda na moda, a educação zero, e o jeitinho

brasileiro de tirar vantagem impera.

 

Automóveis são mais velozes, mas as estradas

são imperfeitas e o trânsito conturbado não

nos permite correr o suficiente para sentir

a adrenalina do prazer de voar. Não nascemos

com asas... Os pés no chão são tudo o que

temos de apoio às necessidades, além das

criadas pelo comércio desde cedo no imaginário

de nossas crianças e adolescentes, que

precisariam tão somente de Amor, de uma

Família e, no meu entender, de espiritualidade,

afinal de contas, a vida não pode ser

só o que “vemos” ou acreditamos que “vemos” e

tocamos. Fosse assim, qual o sentido da vida

e da morte, senão algo bem maior do que

nós, falhos, egocêntricos, e, por vezes, individualistas.

Passamos o ano a olhar o próprio nariz, mas

incrivelmente em época natalina descemos de

andar com pés descalços, observando as

necessidades de outras pessoas e o “quanto distantes”

estão de nós.

Então, fazemos caridade,

exercitamos a solidariedade, balbuciamos

palavras de carinho, vivenciamos o conceito

de perdão, aprendemos e apreendemos o significado

do Natal. Por que será que é só em época

natalina? A pergunta não quer calar...

 

Sem resposta, retornamos em janeiro a nossa

vida, ao nosso trabalho, aos compromissos quotidianos.

Investimos (quando adultos) 50% do nosso dia

cuidando de necessidades fisiológicas,

o restante dedicamos a leituras de aperfeiçoamento,

lazer quando dá, e o remanescente dormindo o

"sono profundo do pensar" que a vida é só isso

e nada mais.

 

“Que pena”, todos dizem, “queria

ter mais tempo”. Mas tempo para quê? O tempo

é agora, é o hoje, é nos segundos que abrimos uma

porta e gentilmente cedemos a nossa vez a outro

passar, proporcionamos um sorriso, fazemos simples

saudação de “Bom Dia!”, sendo bem verdade que, às

vezes, o retorno é só o silêncio. Um simples cumprimento

pode ser sacrifício demasiado para alguns...

 

Como a maioria, também queria “ter mais tempo”.

Mas um tempo para despertar desta anestesia geral

de que o Natal é a única época obrigatória que

temos para “fazer o bem”, pois a "droga" que leva

ao sono cotidiano é forte.

 

Podemos até acordar e olhar a nossa volta,

mas o olhar verdadeiro

deve ser para dentro de nós, fazendo um balanço do ano

que passou, e do que efetivamente fizemos e "plantamos" em 2011

para que o 2012 seja, enfim,

de espetacular colheita à humanidade. Sem

esquecer que o tempero do Natal é a alegria, o

pulsar de vida, a consciência em paz e a

renovação dos sonhos.

 

Feliz Natal a todos!

Tierle M. P. Tricerri.

Dezembro/2011.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Art/Formatação:
Zilca P. Tricerri